segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A "tal" velocidade necessária

O termo “pós-modernidade” é usado neste texto como um “guarda-chuva” conceitual, que engloba uma série de mudanças econômicas (mundialização, financeirização, capitalismo flexível), políticas (crise do Estado-Nação, neoimperialismo) e culturais (pós-modernismo, fim dos metarrelatos e teleologias) que provocaram uma particular aceleração, que começou reger nossa sociedade a partir dos anos 70.

A “crise do Estado-Naação” é uma das características fundamentais da pós-modernidade e ela pode ser interpretada pela chamada, polarização da sociedade. Isso significa que é cada vez mais difícil um povo poder contar com a possibilidade de um destino comum. Uma pequena parcela desse povo (mais afortunados) nem se sente mais como parte de uma nação, afinal estão conectados a uma rede via satélite que os proporciona serem cidadãos globais e cosmopolitas profissionais, desprendidos de seu território e de sua comunidade local. No entanto, essa parcela se encontra com a grande massa de desafortunados formando um todo coerente, mas que dialóga em velocidades distintas. E essa é base principal para se discutir o papel dos computadores no mundo contemporâneo.

A Informatização do cotidiano

A chamada informatização do cotidiano não é apenas a disseminação de equipamentos de informática, mas é também o predomínio de práticas culturais mediadas por esses equipamentos. Alguns simples exemplos são: o bate papo na internet, o mandar mensagens de texto pelo celular, o usar cartões com chips, o ouvir música e assistir vídeo em formato digital, etc.

Informatização e pós-modernidade podem ser entendidas como uma via de mão-dupla, visto que as características e traços da produção e da cultura contemporânea são melhores compreendidos a partir das especificidades da informática, ao mesmo passo que essa viabiliza o destrinchar das forças potenciais da produção e da cultura. Para alguns autores, como Antonio Negri e Michael Hart a “modernidade” está para a “industrialização”, assim como a “pós-modernidade” está para a “informatização”.

Velocidade e Mercadoria

A Velocidade é entre todos, o mais marcante traço entre a informatização do cotidiano e a pós-modernidade, pois é ela que integra-os a nível de produção e cultura.

Mas esse culto a aceleração não é de agora, ele está presente desde o capitalismo industrial (é intrínseca ao capitalismo)e mesmo a própria forma-mercadoria típica da nossa sociedade exige a necessidade de velocidade, devido ao caráter entre valor de uso e valor de troca. Isto é, se do ponto de vista do consumidor, a mercadoria é a satisfação de uma necessidade –valor de uso-, do ponto de vista do capitalista ela é apenas um meio de fazer dinheiro –valor de troca.

Do Fixo ao Flexível

Existem duas características centrais, responsáveis por luta de certa “hegemonia”, que podem ser destacadas do modelo “especialização flexível”, são elas: a busca pela diversificação e a descentralização da produção. (Aqui se dá o início da história do computador na vida cotidiana)

A busca pela diversificação ocorre em um ritmo tão acelerado, que só poderia ser efetuado por meio do uso intensivo de tecnologias digitais, que promovem apenas tênues mudanças na aparência cosmética das mercadorias.

Sem dúvida, a informatização do departamento de desenvolvimento foi a responsável por tamanha aceleração, afinal sem ela os riscos seriam enormes e sem a mínima garantia de retorno.

Por sua vez, a descentralização estreita a interdependência entre o trabalho e o capital. Isso significa que, no lugar de fábricas cheias de operários envolvidos na produção de um determinado produto final, este arranjo prioriza a fragmentação e a terceirização da produção. Sendo assim, as empresas mais dinâmicas possuem um número restrito de empregados e a “relação de assalariamento”, que acontece entre padrão e empregado, passa a ser uma “relação comercial” entre empresas, sem encargos ou responsabilidades trabalhistas. (fuga e desengajamento, geralmente precedidos de barganhas e ameaças- negociações, concessões de incentivos fiscais, relaxamento das leis trabalhistas, contratos privilegiados)

Entretanto, essas empresas não conseguem se manter nesse sistema tão dinâmico sem a informatização, pois na verdade elas são uma “rede” que conecta a pesquisa, o marketing, os protótipos, a produção e a comercialização, que estão em lugares diferentes do mundo. A informática é a coluna vertebral que sustenta o capitalismo contemporâneo.

A Aceleração Contínua

A disseminação dos meios de comunicação de massa, e conseqüentemente da publicidade, apontou um caminho mais lucrativo para o desenvolvimento de capital: o consumo local. Isto é, o acelerar e produzir de forma a tornarem fins em si mesmos, desconectados de qualquer vestígio de “utilidade”, mas com o olhar sempre voltado ao consumidor final. O objetivo principal é girar capital, deixando de lado qualquer critério de satisfação das reais “necessidades humanas”, é o consumo pelo consumo, é o comprar mais “bolo” mesmo que não se esteja com fome e é essencialmente manter a velocidade.

Para isso, o caminho escolhido foi à obsolescência simbólica planejada, que nada mais é do o fazer com que a mercadoria perca o seu encanto o mais rapidamente, sendo descartada pelo desejo (digamos imaginário) de se ter um modelo “mais atualizado”. (Um vender mais para os mesmos consumidores).

O computador se tornou então a ferramenta ideal para fusão da produção flexível com a obsolescência simbólica planejada, pois é ele que propicia a agilidade de desenvolvimento de “novos” produtos e fornece um canal rápido o suficiente para incorporar as tendência da moda ao processo fabril. Ele permite que a informação de planejamento dos novos produtos flua entre a indústria, o comércio e marketing. O desejo do consumidor é o canal que em longo prazo permite a relação empresa e usuários.

Finalizando a cadeia da aceleração, o fenômeno da “convergência digital” permite ao um “trabalhar” sob uma plataforma produtiva única, sem grandes investimentos de capital ou de tempo.

A Casa e a Rede

A informatização do cotidiano facilitou a penetração de um novo sistema produtivo em todo o tecido social, pois a mercê da aceleração constante se organiza uma sociedade baseada em métodos de controle “científico” do tempo e do ritmo, integrada diretamente ao processo produtivo. Isso significa, por exemplo, que o “lar” passa a ser uma base de negócios e o computador o transforma em um “nó” da rede produtiva, e de alguma forma se torna uma ferramenta que o integra à sociedade.

Essa extensão à esfera doméstica, colabora para um processo de subjetividades (pequenos atos do dia-a-dia) compatíveis à lógica da aceleração, inserindo o “lar” em fluxo caótico de informações, padrões e referências, que gera uma reprodução sem reflexão e sem a criação de diferentes sentidos de um maçante movimento. E além do mais, acaba criando cidadãos reprodutivos e consumidores dedicados.

Por outro lado, voltamos à via de mão dupla, de que também foi à necessidade de aceleração da forma da mercadoria, que criou o ambiente propício à informatização do cotidiano.

Sua Majestade, O Indivíduo

A especialização flexível (forma de produção) e a obsolescência simbólica (forma de consumo), com a ajuda das redes de comunicação, são formas de produzir que se tornaram intrínsecas ao tecido social. Porém, o quadro se completa com a chamada individualização ou “privatização” das sociedades.

Esse outro componente do quadro, segundo Ulrich Beck, sociólogo alemão e autor de “Sociedade de Risco”, se deu pelo ganho gradual da relevância da idéia de indivíduo, em contraposição à perda dos referenciais de coletivo e comunitário.

Na sociedade informatizada, onde a necessidade de velocidade se soma as idéias de individualização e privatização, o individuo é o único responsável pelo seu lugar de inserção no mundo, sendo que esse lugar quando conquistado não é garantido para sempre. O computador propicia a ele a capacidade de ser veloz, acompanhando cada movimento da tecnologia e da sociedade, já que é uma máquina de uso privativo e o sujeita a upgrades ou atualizações constantes, que são as senhas para o acesso à sociedade real e virtual.

Contudo, cabe apenas ao indivíduo navegar, arcando com as conseqüências de seus movimentos e, principalmente com os custos de sua aceleração.

Second Life: Vitrine do Capitalismo Informacional

Em algumas circunstâncias, um evento “explode” no plano empírico e se torna capaz de demonstrar os movimentos e tendências da sociedade de maneira paradigmática. Esse é o caso do programa Second Life, uma segunda vida na rede, criado pela empresa americana Linden Lab no ano de 2003.

O programa permite que o usuário viva uma segunda vida, bem diferente da primeira, uma vez que cria uma representação gráfica de si mesmo e coloca-se a interagir com outras representações.

Ao contrário da vida orgânica, com ciclos de tempo insuportavelmente longos para o capital, as transformações no Second Life são imediatas, desde que se tenha dinheiro para pagar por elas. Da mesma forma, tudo se desatualiza e deixa de ser interessante muito rapidamente, tornando necessárias mudanças na aparência das representações.

(Ideal, expressão perfeita da organização social da pós-modernidade e do capitalismo)

É intrigante ver como a viva orgânica da pessoa recebe interferências da vida no Second Life, pois a pessoa adapta todo o seu computador, com aceleradores gráficos, banda larga, processadores, entre outras coisas que demandam dinheiro e investimento na primeira vida. Isso sem falar daquelas empregas que possuem um faturamento real, por meio de vendas, propagandas e artefatos de bytes, dentro do programa.

A Forma-Informática (Conclusão do raciocínio)

A informatização do cotidiano pode ser vista como uma forma de relações que atende às necessidades de uma sociedade na qual a velocidade, a obsolescência e a individualização são princípios fundadores.

A cultura da forma-informática se dá pela visão não mais retificada (“coisa”) do computador, mas da cristalização de certas relações sociais, ou seja, visto como forma-informática. Ele é um vetor aceleração, capaz de penetrar o espaço doméstico e integrá-lo às necessidades do capital, além de colaborar para a construção de subjetividades ajustadas à “regra do jogo”. Enfim, ele se torna instrumento e medida da capacidade individual de integração aos fluxos em constante mudança das sociedades contemporâneas.

(Crítica) A vida que vivemos junto ao computador, estejamos em “carne e osso” ou reduzidos a um avatar, dificilmente conseguirá apontar para uma superação das injustiças, desigualdades e violências inerentes a um mundo talhado pela forma-informática, em que o importante é sempre ter mais, o mais rapidamente possível. (a sociedade não contente em viver nessa lógica no mundo real vive-a mais intensamente no mundo virtual).

sábado, 15 de novembro de 2008

EXTRA! EXTRA! EXTRA!

Para o nosso trabalho realizamos uma entrevista exclusiva com a jornalista, professora e doutora em ciências da comunicação Pollyana Ferrari, que é também autora e organizadora do livro que estamos estudando, "Hipertexto, Hipermídia-as novas ferramentas da comunicação digital".
Já está postada no YouTube, confira!

Parte 1.


Parte 2.


Parte 3.


Parte 4.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Da rigidez o texto, à fluidez do hipertexto

A oralidade e a escrita foram instrumentos essenciais para a construção da sociedade. A partir delas, estruturas de imaginários sociais se desenvolveram, dando origem a políticas duras e disciplinadoras, relações entre classes, gêneros e ao próprio desenvolvimento e estruturação da ética. Sustentado pelas raízes, da impessoalidade da oralidade e com o ideal de autoridade, lógico e estrutural do texto, o hipertexto dialoga de maneira mais flexível, pois funciona de forma mais independente do que as páginas de um livro, já que se utiliza de uma rede de conexões e de uma convergência de recursos midiáticos, como o vídeo, a fotografia, o áudio, a intertextualidade.
O hipertexto é um conjunto de nós com significados interligados, por conexões entre palavras, páginas, fotografias, imagens, gráficos e seqüências sonoras, formando narrativas digitais que superam as limitações da tradição da escrita e da oralidade, pois não buscam isolar ou fragmentar o sentido do texto ou do discurso, mas ampliar a rede de significações. Pode-se dizer que, o hipertexto funciona a partir da convergência da oralidade, da escrita, da intertextualidade e de recursos audiovisuais, que de alguma forma se desenvolve, por um modelo caótico em que não é preciso uma hierarquia de informações, mas uma ramificação pela contaminação de diversos meios.
Recursos, como o hiperlink, permitem que o hipertexto quebre com o pressuposto lógico da linearidade do texto tradicional, já que torna possível romper um texto em qualquer ponto e configurá-lo para outros caminhos, revelando uma autonomia das partes em relação ao todo (organismos dinâmicos), o configurando como uma percepção de interconectividade capaz de romper com o modelo de hierarquia, centralização e liderança.
Contudo, percebe-se uma busca pela fluidez do texto, ao invés da opressão da unidade simplista da gramática, da língua e dos valores sociais.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Com você, a imprensa móvel

O anúncio no novo celular da fabricante americana Apple, o iPhone, causou um certo arrepio no mercado, no início de 2007. Isso, por conta das diversas possibilidades de navegação e conectividade que o aparelho oferece; é basicamente um comunicador multimídia portátil, que engloba funções de telefone celular e de computador de mão. De fato, com este aparelho, o principal executivo e fundador da Apple, Steve Jobs, mostrou ao mundo que o computador pode ser portátil e naturalmente integrado ao celular. Provou também que a convergência e a mobilidade das mídias, não era só um imaginário, ela é possível e existe. O conceito apresentado por Jobs é perseguido desde os anos 1990 - época do grande boom da telefonia celular digital-, pelas indústrias de informática e telecomunicações em torno do suposto advento da “internet móvel”, vindo do conceito já usado de conexão e transmissão de dados através de telefones celulares, como SMS, MMS, WAP etc. Com este conceito, a transmissão de dados através desses formatos, abre portas para uma nova tendência. As empresas de mídia e o jornalismo não ficam de fora, encontram no celular um novo meio de difusão de seus conteúdos.
Assista ao vídeo:
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segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Hipertexto, Hipermídia. AHN?!


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"O que muda na postura e no dia-a-dia do profissional da informação na era digital? Quem é o novo profissional da comunicação e quais meios ele possui? Hipertexto, hipermídia desvenda as representações, os processos e os modos de disseminação do conhecimento a partir do computador pessoal, do notebook, do palm, do celular, entre muitas outras possibilidades. Ao cidadão ávido por informação bem apurada, o suporte importa muito menos que ter a notícia ao alcance das mãos, onde e quando precisar. E, de preferência, com um grau de interatividade impensável há poucos anos. Na era digital, tanto o acesso à informação quanto a relação do público com ela está sendo pensado pelos pesquisadores e jornalistas que vivenciam a hipermídia. Por isso, é uma obra imperdível para alunos e professores da área de comunicação em geral e, especialmente, de jornalismo".


O livro "Hipertexto, Hipermídia-as novas ferramentas da comunicação digital", de Pollyana Ferrari, professora da PUC-SP, e doutora em ciências da comunicação pela USP, é o livro que estamos trabalhando este semestre na disciplina Comunicação Comparada I. É um livro composto de treze artigos escritos por diferentes autores, e pela própria organizadora; nos remete à estrutura de um rizoma -raiz-, os capítulos tem uma ordem, mas não necessariamente um tem que ser lido após o outro para serem compreendidos, podem ser trabalhados independentemente. Aborda temas diferentes, porém da mesma natureza, tratanto sempre da nova sociedade em que vivemos hoje, não-linear e fragmentada.

Neste blog, vamos trabalhar três capítulos; "Com você, a imprensa móvel", de Paulo Henrique Ferreira, que discute o mapeamento do mercado editorial de conteúdo para telefone celulares; "Da rigidez do texto, à fluidez do hipertexto", de Urbano Nobre Nojosa que discute a linguagem híbrida do hipertexto, remetendo-nos à uma viagem até a grécia antiga e também "A velocidade necessária" -que deu nome ao blog- de Edilson Cazeloto que traça um paralelo entre conceitos de pensadores como Zygmunt Baumann e Michel Foucault e a informatização do cotidiano.